![]() Charles Taylor (Foto: Reprodução) |
Uma delas e talvez das mais importantes seja a possibilidade de crer em um mundo secularizado. Há lugar ainda para a fé em um mundo desencantado, que suspeitou da existência de Deus a ponto de afirmar com Feuerbach que esta era apenas uma projeção das carências do sujeito; ou chegando até mesmo a declarar sua morte, com Nietzsche?
O filósofo canadense não apenas parece estar convicto de que é possível ser uma pessoa religiosa na secularidade, como ele mesmo se assume enquanto tal. Apesar de haver pessoas que experimentam a imanência e a realidade como um todo fechado no qual não há brechas, Taylor afirma que vivemos num mundo onde, se há “bolsões” de absoluta descrença, há também, por outro lado, os mesmos “bolsões” de crença e religiosidade, o que desmente a impossibilidade de crer em meio ao mundo secularizado.
Na verdade, o que o filósofo tenta demonstrar com sua reflexão é que tanto em termos de secularização como de religião cada vez se confirma mais a convicção de quão fantasticamente diferente pode ser o que se chama de religioso, assim como de quantas diferentes situações e aberturas e diversas possibilidades há de se ser uma coisa ou a outra. O fascinante da condição humana – dirá o filósofo canadense – é que se podem encontrar diferentes constelações culturais que abrem e tocam partes das mentes humanas e fecham outras. Assim, há perdas e ganhos em ambas as partes, seja da crença, seja da descrença.
No que diz respeito à crença e à religião, o filósofo de Montreal afirma o dever de estar atentos hoje à situação cambiante e mutante da vida religiosa na sociedade. Uma vez que se adquire esse olhar, já não se vê os movimentos da religião de forma linear. Isso transforma as pessoas em buscadoras, ou seja, em seres em constante movimento. A sociedade onde uma confissão é hegemônica ou mesmo única; a sociedade onde a única religião é identificada com o estado e a política tende a desaparecer completamente no mundo ocidental.
Os jovens, sobretudo as novas gerações, buscam a diversificação e a pluralidade, em total diferença com relação às gerações que os precederam. Por isso, trata-se de uma cultura secular, sim, mas cheia de aberturas, através das quais novas possibilidades são acrescentadas permanentemente. E esses “acréscimos”, se olhados do lado da secularidade, serão percebidos como a presença da fé e da religião que insiste em se fazer presente nos espaços que se lhe apresentam abertos. Assim como, se olhados do lado da fé e da religião, serão vistos como o avanço da secularização que não para e invade mesmo os espaços cobertos pela crença.
Hoje, mais do que nunca, as pessoas podem considerar-se e autocompreender-se como espirituais, mas não religiosas; místicas, mas não institucionalmente enraizadas; membros de comunidades religiosas difusas e criativas, que diferem muito das antigas instituições rígidas e com escasso espaço de movimentação e mudança.
Nesta sociedade secular aberta, os buscadores que somos todos nós estamos convidados a situar-nos e traçar nosso caminho. Será caminho, e portanto, não estático. Será dinâmico e portanto, não imóvel. Será mobilizador e portanto não introvertido e imutável. O pensamento rigoroso, mas ungido de esperança do filósofo canadense católico Charles Taylor traz um convite estimulante a pensar a fé nesta era secular aberta, de tantas mutações e movimentos.
Maria Clara Bingemer é teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio. É autora de diversos livros, entre eles, ¿Un rostro para Dios?, de 2008, e A globalização e os jesuítas, de 2007. Escreveu também vários artigos no campo da Teologia.

Álvaro Mendonça Pimentel Doutor em Filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais, com estágio de pesquisa na Université Catholique de Louvain (Bélgica). Cursou Teologia nas Facultés Jésuites de Paris (França). Atualmente, trabalha como professor da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE-MG), com docência nos campos da Filosofia da Religião, da Ética e da História da Filosofia Contemporânea. É membro fundador da Associação Brasileira de Filosofia da Religião
Quem vive separado de si mesmo não consegue ter acesso a outra pessoa
Émilien Vilas Boas Reis é graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Mestre e Doutor em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Professor de Filosofia do Direito e Metodologia de Pesquisa na Escola Superior Dom Helder Câmara.




