Archive for the ‘Ética’ Category

Ética no diálogo e o bem comum

Viernes, mayo 17th, 2013
17/05/2013

A sociedade sofre avalanches de todo tipo: escândalos morais no âmbito político, incoerências absurdas no mundo religioso, crises diversas nas relações familiares e a redução do trabalho à lógica do lucro. Pode-se fazer uma longa “ladainha de avalanches” que distanciam a vida de sua compreensão como dom, oportunidade de experiências valiosas. Sem nenhum sentido de pessimismo, ao fazer essas constatações, ainda é possível, louvado seja Deus, construir um rosário de fatos e acontecimentos que dignificam pessoas, alavancam a construção de uma sociedade justa e solidária. Existem ações de grande alcance, engenhadas com grande competência e espírito de solidariedade, que merecem constante reconhecimento e cotidiana divulgação, alimentando imaginários para que se tornem efetivas as convicções e condutas solidárias. E que a sociedade brasileira faça jus ao que canta, em verso e em prosa, de ser uma cultura marcada pela proximidade.

Contudo, é importante a consideração das condutas que geram prejuízos para se ganhar estatura no seu enfrentamento e, consequentemente, modificar cenários. Sobretudo o clamor dos mais pobres não pode ser desconsiderado nunca. Essa sensibilidade não deve servir apenas para construir argumentos e promessas em campanhas eleitorais. Escutar os pobres e considerar suas urgências, atendendo-as com presteza e como prioridade, têm uma força educativa que, se não for alcançada, reduz as conquistas apenas a indicadores econômicos. Esses números tornam-se insignificantes, pouco incidentes na vida dos pobres, quando não estão emoldurados por uma sensibilidade social e apurada consciência política que não é, obviamente, aquela partidária do cenário brasileiro.

Infelizmente, a consciência política partidária no Brasil é uma verdadeira lástima.  Basta verificar a grande quantidade de siglas que carregam de tudo e tudo negociam, a partir de interesses cartoriais e grupais. Não menos, carregam também muitos que não têm competência para exercícios executivos e parlamentares, atrasando processos, burocratizando e retardando serviços para o bem comum. A sociedade não pode ser regida estritamente pelas ideologias desses partidos, tantas vezes filosoficamente pouco lúcidas, eivadas, não raramente, de interesses mesquinhos, ferindo direitos intocáveis. A vida social tem que ser pautada pela mais alta consciência cidadã, para que políticos, executivos e tantos outros compreendam e ajam, de fato, não como mandatários, mas como servidores dos interesses daqueles que neles depositaram confiança.

Retomando as “avalanches” que transformam a sociedade brasileira, merece consideração especial a profusão de informações e opiniões difundidas nas redes sociais. Pela internet, as pessoas podem se manifestar sobre tudo, mas é importantíssimo que o façam com responsabilidade, cada um reconhecendo o seu fundamental papel na construção de um mundo melhor. Aqueles que estão nos governos, nos serviços religiosos e humanitários, assim como os que se beneficiam destas ações, precisam redobrar a atenção para a exigência de ética nesse diálogo na web. Não se pode dizer e espalhar inverdades.

Na perspectiva das instituições, deve ser prioridade a manutenção de ouvidorias efetivas para que se saiba a opinião do povo sobre as ações dos governos, sobre os serviços religiosos e de entidades diversas, como uma prestação de conta social e indispensável diálogo numa sociedade que busca ser cada vez mais igualitária. Assim, os políticos não podem tomar cafezinho com o povo e andar nas ruas apenas no tempo das eleições. Os religiosos, primando pela conduta moral ilibada, devem comprometer-se com as instâncias de participação e comunhão no exercício de sua liderança. Os empreendedores não podem deixar de equilibrar seus interesses com aqueles da coletividade. Os formadores de opinião devem veicular mais a voz dos pobres. Neste caminho e com esta sensibilidade se garantirá a indispensável ética no diálogo que leva ao bem comum.


Dom Walmor Oliveira de Azevedo O arcebispo metropolitano de Belo Horizonte, Dom Walmor Oliveira de Azevedo, é doutor em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma (Itália) e mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico, em Roma (Itália). Membro da Congregação do Vaticano para a Doutrina da Fé. Dom Walmor presidiu a Comissão para Doutrina da Fé da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), durante os exercícios de 2003 a 2007 e de 2007 a 2011. Também exerceu a presidência do Regional Leste II da CNBB – Minas Gerais e Espírito Santo. É o Ordinário para fiéis do Rito Oriental residentes no Brasil e desprovidos de Ordinário do próprio rito. Autor de numerosos livros e artigos. Membro da Academia Mineira de Letras. Grão-chanceler da PUC-Minas.

A justiça do perdão Álvaro Mendonça Pimentel

Sábado, mayo 11th, 2013

11/05/2013

A justiça do perdão

Domtotal.com

A aproximação entre “justiça” e “compensação por danos sofridos” povoa a cultura humana há milhares de anos. Dizem que nasceu da experiência ancestral de troca de bens necessários à vida, e de busca de regras que conduzissem ao respeito da igualdade e reciprocidade dos valores envolvidos na troca. Ser justo, neste caso, consistiria em saber, por exemplo, que o sal vale mais que o trigo em determinada região, e comercializar um quilo de sal contra três de trigo.

Estas noções de proporção e compensação, pouco a pouco, se tornariam reguladoras também das relações humanas, sobretudo, quando estas tendessem ao conflito. Assim, pensemos no caso em que uma pessoa lesada por outra fosse tomada pelo desejo de vingar-se. Como se estabeleceram medidas para canalizar a vingança e evitar que se transformasse numa escalada de destruição? Redigiram-se códigos que limitavam a violência humana e geriam os conflitos entre as partes: – “olho por olho, dente por dente!”, disseram os sábios ancestrais. Recordemos, no entanto, que o “dente” do rei valia bem mais que o do súdito e exigia, se ferido, maior compensação. Aliás, as diferenças sociais perpetuadas, de geração em geração, inseriram na ideia de justiça social a noção de distribuição proporcional de tarefas entre estratos relativamente rígidos. E ainda hoje, há “reis” ou “rainhas”, “guerreiros”, “sacerdotes”, “artesãos” e “escravos”, mesmo que seus nomes e funções tenham se modificado.

Porém, interessa-me neste ensaio perceber, principalmente, que a naturalidade com que julgamos ser necessário compensar ofensas sofridas (e punir quem nos ofende) talvez se enraíze nesta compreensão da justiça acima esboçada. Sem dúvida, trata-se de um modo de organizar o mundo das relações humanas e dotá-lo de ordem razoável. Mas algo escapa desta ordenação e exige outro olhar. Não basta seguir o antigo ímpeto e dizer: – “Alguém deve pagar por isto!”

E se a dívida não pudesse ser paga, nem mesmo ao preço de uma vida? E se a injustiça atingisse não um bem material que me seja caro, mas meu sentimento do mundo? Refiro-me ao sentimento que colore tudo que me acontece, define minhas opiniões e reações no cotidiano e interfere, enfim, em todas as minhas decisões. Algo infinito e, neste sentido, desproporcional.

Aprendi em minha escuta dos dramas humanos, por exemplo, que pais cujos filhos foram assassinados não se satisfazem nem mesmo ao ver o algoz receber a mesma pena que impôs ao inocente. E a experiência da vida mostra que as feridas das relações cotidianas não se fecham, quando tratadas por meio de pequenas vinganças em reação. A justiça proporcional, que exige compensações por danos sofridos, mostra-se insuficiente para lidar com o sentimento.

Precisamos de outra justiça. Parece razoável deter e punir quem destrói e ameaça a vida humana. Mas creio que outro passo precisa ser dado, para equilibrar a convivência social. Defendo que a intuição do coração ferido, em mim e em outro, intuição cujo nome é “compaixão”, conduza-nos a outra forma de justiça: a justiça do perdão. Algo deve ser feito para vencer a violência do mundo e romper o círculo de imitação e de guerra, que há séculos nos conduz da violência à vingança, mesmo quando esta, no melhor dos casos, encontre-se limitada pela justiça de proporção. A justiça do perdão exige que a pessoa violenta seja desmascarada e corrigida. Mas não se contenta em vingar-se. Ou melhor, não busca vingança ao impor a pena justa a quem transgrediu a ordem humana. Em todos os casos em que se revele possível, deseja trazer de volta à vida e às relações aquele que, outrora, também foi vítima, antes de converter-se em agressor.


Álvaro Mendonça Pimentel Doutor em Filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais, com estágio de pesquisa na Université Catholique de Louvain (Bélgica). Cursou Teologia nas Facultés Jésuites de Paris (França). Atualmente, trabalha como professor da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE-MG), com docência nos campos da Filosofia da Religião, da Ética e da História da Filosofia Contemporânea. É membro fundador da Associação Brasileira de Filosofia da Religião

Da indignação à compaixão Álvaro Mendonça Pimentel

Sábado, mayo 4th, 2013
04/05/2013

Domtotal.com

Quem vive separado de si mesmo não consegue ter acesso a outra pessoa
A indignação constitui etapa fundamental no processo do perdão. Ela me liberta, pois consiste em conduzir ao polo da palavra a agressão outrora sofrida, cuja dor me dominava e modificava a tonalidade de meu sentimento do mundo. Diferencio-me, reunifico-me, ao contar o acontecido a alguém confiável e forte o suficiente para suportar a infelicidade que lhe apresento. Cria-se uma distância saudável entre mim e a dor, a distância da palavra.

Mas algo acompanha, por vezes, a indignação: o desejo de vingar-me e exercer violência sobre quem me agrediu. Talvez eu o obedeça e permita que a violência atravesse meu corpo. Jorrarão, por exemplo, palavras venenosas contra meu ofensor. E tais palavras, num círculo de guerra, alimentarão secretamente a dor do passado, levando-me a regredir da indignação ao queixume. Devo admitir, portanto, que ainda me encontro ligado ao infortúnio e sirvo o mal que atravessou a minha vida. Aliás, frequentemente não percebo a armadilha, até que um amigo verdadeiro venha despertar-me, ao sugerir: – “Com tuas críticas mordazes, não te colocas no mesmo nível de teu agressor? Conheço teu coração, sei que não desejarias agir assim!”

A força desta palavra torna-se lampejo de verdade e ilumina-me a consciência. Considerava-me completamente vítima e condenava meu inimigo como um completo agressor. Mas agora compreendo que a violência que o dominou e, a partir dele, transbordou sobre mim, também encontrou guarida e ponto de ataque em meu coração. Contatar o mal que brota da semente da agressão e que se expressa em minha vida no avesso da vingança, eis o que abre nova compreensão e, quem sabe, novo sentimento em relação a meu agressor.

Sem aceitar que meu antigo adversário me fira novamente, concedo que algo se modifique em mim… Um movimento interior, que se produz sem que eu o explique, mas que exige meu consentimento para progredir, me toma pela mão e me conduz. Desde então, começo a me interrogar: – “Teria ele também vivido algo similar ao que ocorreu comigo?”; “Atrás da máscara de dor ou mesmo de horror, que alguns ofensores sustentam, não haveria um simples ser humano que, assim como eu, fora agredido no passado?” Estas e outras questões franqueiam passagem ao íntimo desse outro que foi injusto comigo. Cria-se familiaridade entre nossos afetos. E quando desvelo o sentimento doloroso de alguém, converto-me, lentamente, à compaixão. Deixo de sofrer “contra” meu agressor e passo a sofrer com o outro agredido. – “E se houvesse uma complexa rede de sofrimentos ligando todos os seres humanos?” “E se todos necessitassem de salvação, assim como eu?”

Quem vive separado de si mesmo não consegue ter acesso a outra pessoa. Perceber e perceber-se constituem um só movimento, à maneira do que ocorre no toque. O sentir-se e o sentir se acompanham. De modo análogo, minha intuição do coração humano sofredor e violento apoia-se em meu próprio sofrimento e violência. Compadeço-me do outro, porque também padeço.

Encontro-me agora em condição de corrigir quem errou. Da indignação à compaixão, a ação da graça do processo de perdão encaminha-se ao desfecho.


Álvaro Mendonça Pimentel Doutor em Filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais, com estágio de pesquisa na Université Catholique de Louvain (Bélgica). Cursou Teologia nas Facultés Jésuites de Paris (França). Atualmente, trabalha como professor da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE-MG), com docência nos campos da Filosofia da Religião, da Ética e da História da Filosofia Contemporânea. É membro fundador da Associação Brasileira de Filosofia da Religião

Peter Singer Ética Práctica

Jueves, abril 4th, 2013

Revista Misión Joven Diciembre 2012

Miércoles, febrero 13th, 2013