Por Lev Chaim, de Amsterdã*
Nelson Mandela, de 94 anos, está doente e a sua morte está próxima, ao que tudo leva a crer. Desde que ele deixou o hospital no último dia 6 de abril, vítima de uma forte pneumonia, o mundo não o havia mais visto desde 2012.Isto, até um recente filme colocado no ar pelo partido do Congresso Nacional Africano (CNA), da África do Sul, onde Mandela aparece em sua casa, recostado em uma poltrona, ausente e frágil, de mãos dadas com o presidente sul-africano, Jacob Zuma, e altos líderes do partido.
Choveram críticas ao governo e à cúpula do partido, acusando-os de hipócritas.Se por um lado, figuras do governo pediam para que se respeitasse a privacidade do pai da “nova África do Sul”, que colocou um fim ao regime de apartheid, agora, eles próprios colocaram no ar um filme em que se vê líderes do partido, com celulares, fazendo fotos e filmando Nelson Mandela. Até parecia uma despedida privada e antecipada.
As mensagens contra essa exploração “indevida” da imagem de Mandela, que apareceram por todos os cantos, mas principalmente na mídia social, foram pesadas: “total desrespeito”, “exploração barata”, “invasão de privacidade” e outras coisas. Era como se todos dissessem para deixar o doente morrer em paz, pois a sua “imortalidade” já está garantida.
A imprensa holandesa e do resto da Europa não ficaram atrás e publicaram essas críticas, após o lançamento inesperado daquele vídeo. Na África do Sul, embora ninguém fale sobre o assunto abertamente, ficou claro uma coisa: o governo sul-africano, em um sinal de urgência, está se preparando para a morte de Mandela, como se quisesse legitimar tudo o que foi feito e o que será feito, após a sua morte, em nome de sua memória.
Livros sobre a África do Sul sem o carismático Mandela já foram publicados. Em 1997, por exemplo, o jornalista sul-africano, Lester Venter, escreveu “When Mandela Goes” (Quando Mandela se for). Em uma publicação mais recente, sobre o mesmo assunto,do ex-correspondente do jornal The Daily Telegraph, Alec Russel, falou-se dos poderes quase “mágicos” de Mandela, que conseguiu unir o povo sul-africano, fazendo-o acreditar novamente em humanidade.
Para o jornalista Alex Duval Smith, do jornal The Independent, Nelson Mandela é a última legenda viva do planeta. Para o chefe da redação sul-africana da revista Time, Alex Perry, Mandela se tornou o santo do mundo. E Perry lembrou ainda as palavras de Mandela ao sair da prisão, após 27 anos trancado: “Estou aqui não como um profeta, mas como um humilde servidor do povo”. Para Perry, um profeta teria dito aquelas mesmas palavras.
Mas há críticas a essa mistificação toda, em que se declara a quase “infalibilidade” de Mandela. Alega-se que tudo isto acaba servindo aos propósitos do governo, para camuflar os seus erros. Para o ativista do combate à Aids da cidade do Cabo, Nathan Geffen, esta postura impede uma discussão sincera dos sucessos e fracassos do ex-presidente, como por exemplo, a falta de uma política central de combate à Aids nestes últimos 20 anos, o que provocou a morte desnecessária de milhões de sul-africanos.
Segundo analistas sul-africanos da nova geração, “a geração livre”, ou seja, imune aos efeitos da mistificação do ex-presidente, tudo aconteceu porque, na verdade, Mandela nunca comandou de fato o país como presidente, deste o início de seu mandato, em 1994. “Ele era o símbolo da união e reconciliação do povo (voluntariamente ou obrigado), mas as decisões concretas eram tomadas pelo segundo homem do partido, o então futuro presidente, Thabo Mbeki”, dizem eles.
E esses não estão totalmente errados em querer uma análise sincera dos fatos, já que hoje, na África do Sul, 71% da população jovem não têm empregos; além do que, o sistema educacional, de moradia e de saúde estão falidos. E tem mais: a criminalidade no país é uma das mais altas do mundo. De acordo com o programa de Desenvolvimento das Nações Unidas, a metade da população sul-africana vive abaixo do nível de pobreza.
Com isto, até se entende o por quê desses jovens sul-africanos se sentirem traídos pela corrupta elite do partido do Congresso Nacional Africano. Para eles, essa elite só pensa em se enriquecer e não cumpre as promessas feitas em campanhas eleitorais. Esses jovens não se sentem gratos à esta “herança” do ex-presidente Nelson Mandela. Enquanto isto, o mundo inteiro também entra em uma contagem regressiva, na mórbida espera pela morte do grande homem.




















